Uma porção a mais de ultraprocessado por dia faz diferença? Para responder, é preciso acompanhar muita gente por muito tempo. Foi o que fez um estudo publicado em 2024 na revista médica BMJ (Fang Z. e colaboradores, BMJ 2024;385:e078476).
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores analisaram dois grandes grupos de profissionais de saúde dos Estados Unidos: o Nurses' Health Study, com 74.563 enfermeiras, e o Health Professionals Follow-up Study, com 39.501 homens. Ao longo de mais de 30 anos, os participantes responderam periodicamente a questionários sobre o que comiam, e os pesquisadores registraram a saúde de cada um.
O que ele mostrou
As pessoas foram divididas conforme a quantidade de ultraprocessados que consumiam. Quem estava no grupo de maior consumo, em média cerca de 7 porções por dia, teve um risco de morte por todas as causas 4% maior do que quem estava no grupo de menor consumo, cerca de 3 porções por dia.
A associação não foi igual para todos os produtos. Carnes processadas e prontas para consumo e bebidas açucaradas foram as que mais pesaram. Ou seja: nem todo ultraprocessado tem o mesmo efeito, e alguns merecem mais atenção do que outros.
Como ler esse resultado
Quatro por cento é um aumento pequeno, e o estudo é observacional: ele mostra uma associação, não prova que o ultraprocessado foi a causa. Pessoas que comem mais desses produtos podem ter outros hábitos diferentes. Por isso, o recado não é medo de comida, e sim atenção ao conjunto: o que se repete todos os dias, porção a porção, ao longo de anos, conta.
O que pode aparecer nos seus exames
Muito antes de qualquer desfecho grave, o excesso de ultraprocessados pode deixar marcas no sangue. Nenhum valor deve ser lido sozinho; o conjunto conta a história:
- Glicemia e insulina: a insulina pode subir anos antes da glicose, sinal de resistência à insulina;
- Triglicerídeos: costumam responder rápido a açúcar, farinha branca e bebida adoçada;
- PCR ultrassensível: um marcador de inflamação silenciosa;
- ApoB (apolipoproteína B): mostra quantas partículas de gordura que pesam para o coração estão circulando.
Esses exames não dizem o que você comeu, mas mostram como o seu corpo está respondendo. Quem usa remédio para diabetes ou colesterol não deve suspender nem mudar a dose por conta própria.
Por onde começar
Sem terrorismo: não é preciso cortar tudo. Um começo prático é olhar primeiro para os itens que mais pesaram no estudo, como trocar a bebida açucarada por água e as carnes processadas por comida preparada em casa. Pequenas trocas repetidas todos os dias somam.
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