A glicemia de jejum é uma foto: mostra o açúcar no sangue naquela manhã. A hemoglobina glicada (HbA1c) é um filme: mostra quanto açúcar circulou, em média, nos últimos 2 a 3 meses. Por isso ela é um dos exames mais úteis para diagnosticar pré-diabetes e diabetes e para acompanhar o tratamento.
O que o exame mede
A hemoglobina é a proteína que carrega oxigênio dentro dos glóbulos vermelhos. Quando há açúcar no sangue, parte dele gruda na hemoglobina de forma permanente, um processo chamado glicação. Como o glóbulo vermelho vive cerca de 120 dias, a porcentagem de hemoglobina "açucarada" reflete a média desse período, com mais peso nas últimas semanas.
Como ler o resultado
- Abaixo de 5,7%: normal;
- De 5,7% a 6,4%: pré-diabetes, a fase em que ainda dá para reverter o quadro com mais facilidade;
- 6,5% ou mais: compatível com diabetes, a ser confirmado com um segundo exame (outra glicada ou a glicemia), salvo quando os sintomas já são evidentes.
Para ter uma ideia, a glicada corresponde a uma glicose média aproximada: 5,7% ≈ 117 mg/dL, 6,5% ≈ 140 mg/dL, 7% ≈ 154 mg/dL e 8% ≈ 183 mg/dL. Em quem já trata diabetes, a meta mais comum é abaixo de 7%, mas ela é ajustada para cada pessoa: em idosos frágeis, por exemplo, o médico pode aceitar um valor um pouco maior para evitar hipoglicemias.
O que a glicação faz nas suas células
O açúcar não gruda só na hemoglobina. Com a glicose alta por muito tempo, ele se liga também às proteínas dos vasos, rins, olhos e nervos e forma os chamados produtos finais de glicação avançada (AGEs). Eles enrijecem os tecidos, alimentam a inflamação e aumentam o estresse oxidativo dentro da célula. É assim que a glicose alta, sem doer, vai causando as complicações do diabetes: retinopatia, doença renal, neuropatia (formigamento nos pés e nas mãos), infarto e AVC.
A glicada é, portanto, um retrato indireto de quanto as suas proteínas estão sendo "caramelizadas" pelo açúcar.
Quando o resultado pode enganar
Como o exame depende dos glóbulos vermelhos, tudo o que muda a vida deles muda o resultado:
- Pode vir falsamente alto: anemia por falta de ferro, de vitamina B12 ou de folato (os glóbulos vivem mais e acumulam mais açúcar);
- Pode vir falsamente baixo: sangramento recente, transfusão, hemólise, gestação e tratamento da anemia em andamento;
- Doença renal avançada e algumas variantes da hemoglobina (como o traço falciforme) também interferem.
Nesses casos, a glicemia, a curva glicêmica (TOTG) ou a frutosamina ajudam a confirmar. E vale lembrar: a glicada pode estar normal enquanto a insulina já está alta, o sinal mais precoce da resistência à insulina. Veja o artigo sobre insulina alta com glicose normal.
O que ajuda a baixar a glicada
- Movimento todos os dias, com treino de força: o músculo é o maior consumidor de glicose do corpo. Uma caminhada de 10 a 15 minutos depois das refeições já ajuda;
- Reduzir açúcar, farinha branca e bebidas adoçadas, e montar o prato com fibras, verduras e proteína primeiro;
- Perder de 5% a 10% do peso, quando há excesso, melhora muito a resposta à insulina;
- Dormir bem: noites curtas e apneia do sono pioram a glicose;
- Usar os remédios conforme orientação médica e repetir o exame a cada 3 meses enquanto ajusta o tratamento.